Maratona no Everest by Cinni
Namastê
Esporte ou Insanidade Mental.
A primeira vez que soube que existia a Maratona do Everste fiquei eufórico, pois reuniria viagem a pais distante, montanhismo e endurance.
O que eu não sabia é que não se pode chamar de corrida.
Ao invés de corrida, devia ser: quem chegar primeiro, pois é impossível correr morro acima de 3500.
É algo insano, é sobrevivência!
Tinha considerado como obstáculos a aclimatação e maratona em trilha.
Mas vamos colocar mais coisas: 3 semanas dormindo em barraca; 3 semanas sem banho; 3 semanas com roupa suja ou lavada nas coxas com sabão de coco em água gelada (congelando articulação); bolhas que vem e que vão, gripes, diarréias…. e 3 semanas de insolação (tinha gringo com ferida no rosto!!!).
Como o governo nepalês vê no trek uma grande fonte de renda, hoje já existe pousadas na maioria dos locais onde antes era somente acampamento.
A organização da prova permite que se não quiser ficar em barraca pode pagar por conta a pousada (Logde). Cerca de 30 % sucumbiram as noites em barraca e foram para as pousadas. Eu não, eu quis ser autentico. Mesmo sabendo que isso poderia comprometer a maratona, achei que deveria fazer o pacote completo! Considerei dormir em cama como se fosse um dopping. Então suporte dormir em barraca com até menos 35 graus fora, camadinha de gelo interno (por causa da umidade) e ventos que dava medo tremulavam as “paredes”.
Dos 80 ocidentais escritos, 09 não vieram, 1 baixou por diarréia, 3 baixaram por não se aclimatarem, 1 não teve autorização da equipe médica
A m’axima: “só em estar largando é uma vitória nunca foi tão verdadeira”.
Tirando duas ou três exceções, estava todo mundo um farrapo na hora da largada.
É impossível treinar para isso!
Um escocês que vai fazer pela oitava vez e quem tem a melhor marca em maratona de Londres para 2:32′; tem a melhor marca aqui para 5:32! É um tipo de prova que tem tantas variáveis que fica impossível calcular. Antes da prova já havia notado que um cara rápido em pista não é nada aqui, já um cara rude pode se dar muito bem. Fazer pequenos trotes era inviável, pois o que tenho ‘e que me recuperar do trek que fiz por 5 – 6 horas morro acima.
Na largada chegaram os 22 sherpas que participariam
Eu não sei por que colocam eles como se fossem iguais a nós.
Não são!
Eles tem o ‘indice pulmão/resto do corpo maior que nós, têm mais vascularização pulmonar, tem o hematócrito mais alto, têm o volume corrente respiratório mais alto e têm o set respiratório (índice CO2/O2 que faz o reflexo respiratório) diferente do nosso. Destas diferenças, em 3 semanas de aclimatação só consigo melhorar o volume corrente e o set respiratório, mesmo assim não dá nem para chegar perto!!!!
Largada a 5200m de altitude
Largada as 6:30 a menos 28 graus, sim, menos 28 graus.
Com 40 % de oxigênio em comparação ao nível do mar
Onde ninguém caminha há uma maratona!!!
Por mais paradoxo que possa parecer, respirar este ar queima, e como queima.
Tinha a sensação de que o tórax não expandia o que eu gostaria que expandisse.
Eram 88 sendo 22 sherpas (4 mulheres) e 66 ocidentais (26 mulheres).
Os sherpas disparam de cara, e eu fiquei no pelotão da frente dos normais. ‘Éramos uns cinco, correndo em fila na trilha
No km 10… nos perdemos. Devemos ter perdido entre 5 e 7 minutos tentando nos achar
Ao voltar a trilha havia 3 a nossa frente e a primeira era uma mulher.
Juntamos o 2 e o 3 e fomos juntos.
No km 15, o pelotão ficou em 3 novamente. E nos perdemos novamente.
Não foi grande coisa, mas a mulher abriu mais!!!
Não havia plano. Durante todo o tempo eu corria nas descidas e caminhei na subida. Assim como todo mundo fez, exceto os sherpas, que não sei porque insistem em chamá-los de humanos!
No km 22 iniciava uma grande descida. Estávamos a 4000m metros e desceríamos a 3.200. Eu optei em me poupar (pois depois viria uma grande subida até 3900)
A esta altura vi que meu tempo alvo (menos de 6 horas) seria muito difícil (essa foi mais uma das desculpas para querer me poupar mais, o verdadeiro motivo é que eu não conseguia respirar). Assim, os dois abriram de mim e eu fiquei isolado em 4 lugar.
Para surpresa minha depois de tanta contração excêntrica do quadríceps, antes do final da descida já não tinha mais pernas. E ainda há os que digam que morro abaixo ‘e mais fácil!
Quando começou a subida foi um lamento só.
No final da subida, por volta dos 3850, dois dos que tinham ficado para trás me alcançaram.
Apesar de estarmos caminhando, eles caminhavam mais rápido… Tinham uma amplitude de passada que nem cogitei reagir
Apesar de caminhar, minha freqüência cardíaca ficava em 162min, exatamente o mesmo de quando corria na descida.
(lembro que em altitude a FC nao sobe muito em altitudes, e a estas horas fazia uns 5 graus positivo)
Depois destas ultrapassagens, fiquei em quinto masculino e sexto geral, mas com esperança de pegar o quinto
No km 32, estava 1 minuto atrás do quarto e junto com o quinto.
Vale interromper o texto para dizer que o quarto lugar neste trecho era um tipo nada esportivo e que corria com o agasalho amarrado na cintura.
Neste ponto iniciava um trecho irregular, de subidas e descidas em trilha de pedra. Uma beleza para o tornozelo.
Tive cãibra na panturrilha somente uma vez, quando desviava de Iaks (bovinos adaptados a altitude e usados como animais de carga)
O que estava em 4 lugar disparou e eu fiquei ha alguns metros do quinto. Nas descidas correndo ele abria e nas subidas caminhando eu grudava
No km 37 eu estava grudado no quinto mas passei a desejar que ele disparasse na minha frente, pois eu não queria mais nenhum tipo de competição, eu só queria acabar com aquela asfixia.
Resolvi segurar um pouco para perde-lo de vista (e também para justificar meu passo mais lento de pura exaustão).
Cheguei então com 6:16′ em 6 geral sendo 5 masculino. (até então, minha maratona mais lenta tinha sido exatamente a metade, 3:08)
A mulher foi a segunda geral.
Lembra do cara que no km 32 estava em quarto um pouquinho na minha frente… aquele do agasalho na cintura. pois ele chegou em primeiro.
Foi o único a baixar de 6 horas (na verdade ele conseguiu manter o ritmo a partir dos 32. E so ele conseguiu isso)
Dos 22 sherpas, ganhei apenas de 1, que passei no km 41 porque ele se contraia em câimbras. , o primeiro Sherpa fez em inimagináveis 3:47′.
Massssssssss eles não outra categoria. Será que são humanos?
O interessante foi o pós prova…
Sofri de ponta a ponta. Jurei que nunca, nunca mais repetiria essa loucura
Foi um sofrimento diferente de IM ou Comrades.
O único músculo que dói ‘e o bíceps, de tanto segurar o antebraço nas descidas picadas…
Mas o torax doi muito
Minha fisioterapeuta que deve estar feliz, pois devo esta com o tórax bem expandido depois desta insanidade.
Essa foi uma corrida muito diferente, pois não faltou perna, faltou pulmão.
Isso só pode ser insanidade.
Em janeiro abre as inscrições para o ano que vem e eu mal posso esperar para repetir…
Curiosidades fisiológicas
O quinto lugar, aquele que eu nunca alcancei, ‘e um garotao de 24 anos. Quando fui falar com ele para cumprimentá-lo, perguntei que esporte ele praticava; O que ele respondeu? Boxe. Ve se pode, perder para um boxer fã de MMA!!!
E o primeiro lugar ‘e um cara da minha altura (172), mas com uns 85 km e que correu com um agasalho amarrado na cintura. Como isso?
Dos 10 primeiro (entre os normais), 4 eram mulheres. O que prova que mais vale ter uma hemoglobina eficiente que uma hematocrito alto!
Fisiologia tem destas coisas…